sexta-feira, 3 de junho de 2016

O QUE FAZER?, de Nikolai Tchernichevski

Nikolai Gavrílovitch Tchernichevski nasce em 1828 e morre em 1889. Considerado um subversivo, é preso e encerrado na Prisão de Pedro e Paulo. Com a permissão de escrever um romance, dada pelo comandante da Prisão de Pedro e Paulo, o Príncipe Golítsin, Tchernichevski escreve aquele que é considerado na Rússia o mais importante romance do século XIX, por causar efeitos extraordinários na vida dos jovens dos anos de 1860 e de se consolidar ao fazer história revolucionária.
Para o leitor ocidental é um tanto difícil admitir O que fazer? e seu autor como mais importantes do que escritores como Turguêniev, Dostoiévski e Tolstói.
Tchernichevski foi figura de destaque na vida política da Rússia das décadas de 1860 e 1870, assim, como seus pares contemporâneos Aleksandr Ivánovitch Herzen (1812-1870), Nikolai Aleksándrovitch Dobroliúbov (1836-1861) e Dmitri Ivánovitch Píssarev (1840-1868).  Tchernichevski tem participação na Revista O Contemporâneo com seus artigos e no ano de 1862 é detido e condenado à prisão perpétua na Sibéria, local que passará mais de vinte anos. No ano de 1855, escreve tese sobre os problemas da estética artística (As relações estéticas entre a arte e a realidade), texto em que desenvolve as bases para uma estética materialista. Para Tchernichevski, “a beleza é o produto da realidade”, ou seja, desenvolve a partir de uma lógica evolutiva, opondo-se contra o conceito e as teses de Hegel, então em voga na Rússia, de que “a beleza é uma expressão do ideal”. No ano de 1856, escreve Ensaios sobre o período de Gógol na literatura russa

Nikolai Gógol
O contraste apresentado nestes ensaios versam exatamente na oposição inicial entre a arte puchkiniana e a arte gogoliana. Para os partidários da poesia de Puchkin, na obra deste residia o conceito de arte pura, enquanto para aqueles partidários da arte de Gógol, a arte tinha função social, denunciando, desta maneira, os problemas da Rússia. Tchernichevski parte do pressuposto de que a estética realista é superior à estética romântica, na dialética conceitual entre o real e o ideal. Desta maneira, para Tchernichevski, a função do escritor era a de educar o povo, assim, como a função da crítica literária era a de orientar os escritores e controlar a arte. O leitor de O que fazer? percebe o quanto didático, por exemplo, é este romance. Em 1861, Tchernichevski lança o artigo É o início da troca, talvez? Neste artigo, Tchernichevski confronta a literatura moderna e seus escritores a combater a inércia da literatura passadista, agora, enxergando o povo como sujeito e não mais como objeto do processo histórico. O escritor tem a missão, segundo o autor de O que fazer?, de chamar o leitor para a luta e não admirar a paciência dos desprotegidos, tão encenada por alguns escritores do século XIX como Fiódor Dostoiévski. Agora, para Tchernichevski, a sociedade e a literatura precisam de um herói positivo que sirva de modelo para a juventude, e não um Raskólnikov, de Crime e castigo, de Dostoiévski. Claro que esta obra dostoievskiana ainda não havia sido escrita, pois sua publicação vem a ser em 1866. 

Antes, Dostoiévski escreveria, em 1864, Memórias do subsolo como resposta à lógica utilitarista de O que fazer?, assim como citaria O que fazer? em seu romance de 1871, Os demônios, quando o narrador Anton destaca o romance O que fazer? como uma das leituras de Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski (Segunda Parte, III – Todos na expectativa, Capítulo II.). Neste artigo de 1861, Tchernichevski mostra a necessidade de reorganização da vida a partir de princípios mais avançados em nível social e econômico, elementos que serão vistos pelo leitor em O que fazer? na figura, principalmente, de Vera Pavlovna.
Tchernichevski

Dobroliúbov tinha como objetivo o princípio de analisar os tipos sociais do romance a partir da psicologia dos personagens e das cenas, assim, como discutir a função do escritor dentro da sociedade. Píssarev, autêntico mestre da polêmica literária, negava o valor histórico da literatura e ditava a ciência natural como superior à arte. Negava a poesia, assim como seu niilismo artístico polemizou com as obras de Puckhin, Turguêniev, Dostoiévski e Tolstói. Já Herzen, procurava mediar os conceitas da cultura russa com a cultura ocidental, sendo criticado tanto pelos liberais como pelos jovens revolucionários.
Em O que fazer?, Tchernichevski centrou a discussão nos jovens russos Vera Pavlovna, Kirsanov, Lopukhov e Rakhmetov, sendo este último um revolucionário. A partir destes quatro personagens, os novos valores passam a ser discutidos no romance. O que fazer? é, também, uma resposta aos niilistas de Pais e filhos (1861) de Ivan Serguéievitch Turguêniev.

Ivan Turguêniev
O Que Fazer? tem sua primeira parte editada no ano de 1863, em abril, no periódico radical O Contemporâneo, editado por Nekrasov. Este amigo de Tchernichevski é citado algumas vezes no decorrer do enredo de O que fazer?. Nekrasov perde os manuscritos do romance de Tchernichevski em uma condução, precisando de ajuda da própria polícia ao anunciar a perda no jornal oficial da corporação policial de São Petersburgo.
Embora apresente uma qualidade literária primária, O que fazer? consegue converter uma geração ao populismo. O objetivo do romance de Tchernichevski é mostrar a necessidade de uma rápida e necessária troca de âmbito social. O romance tem lacunas e omissões propositais, difundindo alguns temas um tanto velados, mas suficientes para serem nitidamente mostrados para o leitor mais atento. No desenvolver do enredo, o leitor vai percebendo os modelos que Tchernichevski sugere para uma vida alternativa para todo aquele que não estava satisfeito com o andar da sociedade russa do século XIX. Com forte moralismo discursivo e explícito didatismo de ideias, O que fazer? dá todos os indicadores para uma transformação social no momento que desenvolve longos diálogos entre Vera Pavlovna e Lopukhov, assim como Vera Pavlovna e Kirsanov.

Tchernichevski atrai a expectativa e a atenção do leitor já nos primeiros capítulos, relatando o suicídio (que se verá como falso) do marido de Vera Pavlovna, Lopukhov. No final do enredo, para a surpresa do leitor (atento, é claro!), Lopukhov reaparece na figura de Charles Beaumont, um americano que se considera russo, abolicionista e noivo de Katya, amiga de sua ex-mulher Vera Pavlovna. Deste modo, há nova convivência entre os casais Vera Pavlovna/Kirsanov e Katya/Lopukhov (Beaumont). Desta maneira, Lopukhov, com seu falso suicídio, permite que sua mulher se case com outro homem quando se dá conta do fracasso de seu casamento com Verinha. A ideia filosófica de Tchernichevski se desenvolve a partir da ideia do utilitarismo e do “egoísmo racional”, embora mais com tendência a analisar o comportamento dos personagens e seus efeitos positivos na vida dos protagonistas. Inicialmente, o leitor depara-se com as dificuldades de Vera Pavlovna e o despotismo de sua estrutura familiar (pais penhoristas). Maria Aleksevna vê em sua família a condição de ter mais dinheiro, através do casamento de sua filha, por isso se vê roubada por Lopukhov. Este abre mão da sua medicina para salvar Verinha, com a explicação para si mesmo que, mesmo abandonando a medicina, possa ganhar mais dinheiro com outras atividades. Deste modo, não abre mão de algo por causa do prazer. A partir do casamento com Vera Pavlovna, o autor investe em conceitos sobre a questão feminina e direitos iguais entre homem e mulher, exemplificados na distribuição dos quartos (neutros) do casal. Em seguida, Vera Pavlovna funda um ateliê (mais tarde, mais dois ateliês), com uma lógica econômica socialista, investindo no trabalho, na vida em comum e na cultura. Mesclam-se aí conceitos da educação feminina e das cooperativas femininas.

Vera Pavlovna tem quatro sonhos no decorrer do enredo e, no quarto sonho, a Idade de Ouro, através do Palácio de Cristal, é mencionada. Em 1862, Dostoiévski faz referência ao Palácio de Cristal em Notas de inverno sobre impressões de verão, mencionando a Feira Mundial em Londres em 1851. Dostoiévski havia visitado o Palácio de Cristal e ficado horrorizado com sua falta de humanismo. Em 1864, Dostoiévski responderia ao romance de Tchernichevski O que fazer? com Memórias do subsolo. Veja o que escrevi em artigo sobre Notas de inverno sobre impressões de verão:

Fiódor Dostoiévski
Algumas considerações do caráter do narrador e seus conceitos aparecerão em 1864, em Memórias do subsolo, quando das referências de ser o narrador de Notas de inverno sobre impressões de verão um homem doente, que sofre do fígado, que sabe que mentirá e que vê no espelho de um hotel sua língua amarela e maligna. Além destas considerações sobre o narrador em si, este em suas notas de viagem pela Europa tece comentários e conceitos sobre progresso, socialismo, mulheres, casamento, miséria, mentiras, etc. Claro que o “homem do subsolo” terá, em Memórias do subsolo, um nível mais apurado de consciência filosófica e psicológica, desenvolvendo mais perigosamente suas ideias e conceitos, o que o torna ímpar, comparativamente ao narrador de Notas de inverno sobre impressões de verão. Vejamos alguns pontos desconcertantes e polêmicos instaurados pelo protagonista de Memórias do subsolo: é doente, mal e desagradável, instruído, supersticioso e se prejudica a si mesmo. Não se trata, embora respeite a medicina e os médicos (até por ser supersticioso). Vive deste modo há 20 anos; na atualidade, tem 40. Afirma que somente os imbecis conseguem ser algo na vida e, por extensão, ter caráter. Segundo o “homem do subsolo”, viver depois dos 40 anos é indecente, vulgar e imoral. Só imbecis e canalhas vivem depois dos 40. Para ele, um homem decente fala com prazer de si mesmo. Ter consciência muito perspicaz é uma doença. Para o “homem do subsolo”, Petersburgo é a cidade mais abstrata e meditativa do mundo. Seu prazer, segundo o que pensa, é ter consciência de sua degradação. A ofensa dá prazer. Tem um terrível amor-próprio e sabe que vive no lodo, ao contrário do intitulado “belo e sublime”. Sua culpa é ser mais inteligente do que aqueles que estão a sua volta. Para o uso cotidiano, basta a consciência humana comum. Para os homens diretos e de ação é suficiente esta consciência. A consciência hipertrofiada leva à inércia. Segundo as leis da natureza, somos culpados sem culpa. Um homem direto é um homem autêntico e estúpido. Diante de um muro, os homens de ação cedem, diferente dos homens de pensamento. O “homem do subsolo” não se respeita. Uma dor de dentes é prazer, através dos gemidos maldosos, do sofredor. O “homem do subsolo” indaga: é possível respeitar quem busca prazer na abjeção? A inércia é resultado direto da consciência. Já procurou ofender-se intencionalmente. O homem se vinga porque acredita ser justo. Para o “homem do subsolo”, ele se vinga por maldade. Julga-se um homem inteligente por não ter iniciado nem acabado coisa alguma. O “homem do subsolo” se respeitaria se não fizesse nada por preguiça. Ser preguiçoso é algo positivo, é título, é carreira. Eis o século da negação. O homem é tão afeiçoado ao sistema que deturpa a verdade para justificar sua lógica. Apesar da ciência e da razão, o homem continua bárbaro em sua violência. O homem precisa de uma vontade independente. A vantagem humana é o prejuízo também. É possível o homem sem desejo e sem vontade?, indaga o “homem do subsolo”. Vontade e mais razão é mais razão e menos vontade. O “homem do subsolo” lembra seus 40 anos de subsolo. A razão satisfaz o lado racional do homem, não o desejo, que é o sentido da vida. O homem é um “bípede ingrato”. O maior defeito do homem é sua permanente imoralidade e a falta de bom-senso (que provém da imoralidade). A história do gênero humano não é sensata. Amaldiçoar é o privilégio e a principal qualidade que diferencia o homem dos outros animais. O homem abre caminhos e se desvia do caminho, pois está condenado a abri-los. Destrói caminhos para que não conclua, pois, se não, não haveria mais objetivo na vida. O homem gosta do processo de atingir o objetivo, e não o próprio objetivo em si. O homem ama a prosperidade e o sofrimento de modo igual. O sofrimento é a dúvida e a negação é a causa única da consciência, maior infelicidade para o homem. O “homem do subsolo” acredita e não acredita no que está escrevendo, pois sente estar mentindo. Por que se dirige a nós como “senhores” e “leitores de verdade”? Afirma escrever somente para si. É por exibição que se dirige aos leitores, pois assim é mais fácil escrever. Por fim: há coisas que o homem revela aos amigos; outras que revela a si próprio; outras que tem medo de desvendar a si próprio. O papel que escreve tem algo que intimida.
O segundo capítulo, de Notas de inverno sobre impressões de verão, chama-se “No trem”. Aqui, a primeira informação do narrador é que o francês não tem juízo e que a Europa exerce impressão e atração nos russos. Ironiza chamando o Ocidente de “país das santas maravilhas”, pois tudo vem de lá: ciência, arte, humanismo, etc. Indaga como a Rússia ainda não sofreu a completa transformação?
O terceiro capítulo chama-se “E inteiramente supérfluo”. Questiona se suas anotações não são reflexões, devaneios ou “imagem arbitrária”? Apresenta outros assuntos que não necessariamente da viagem a ser contada, como a relação da aristocracia e o povo. Argumenta, entretanto, que se trata de recordações de inverno sobre impressões de verão. Já passou por Eidkunen e está na França. Comenta como a Europa forçou a porta para civilizar a Russia. Fala do russo, homem crédulo e com espírito bonachão. Ironiza que a Rússia é, através de Petersburgo, europeia, e que o povo russo não compreende o progresso europeu na Rússia. Conceitua a moral julgada entre uma casamenteira e uma dama, com pesos e medidas diferentes. Sabe que todos os russos intelectuais vão para o Ocidente, mas o caso dele é diferente. Julga o capítulo que escreveu de supérfluo. Neste capítulo, o leitor percebe a preocupação de Dostoiévski de fugir do pessoalismo da contagem de uma simples viagem para a capacidade crítica de avaliar a cultura europeia refletida na Rússia. Esta capacidade de Dostoiévski é a de, também, trabalhar como o psiquismo destas relações refletem na sociedade russa. O primeiro homem supérfluo é Tchátzki, personagem de Griboiédov. O tipo moderno russo, já é radical e progressista.
O quarto capítulo chama-se “E não supérfluo para o viajante”. O narrador inicia indagando, novamente, “por que não terá juízo o francês?”. No trem, troca conversa com um suíço; é observado por policiais franceses espiões. Neste momento, cruza a fronteira com a França, passando pela alfândega de Arkelin. Questiona a liberdade europeia. Relata o casal de velhos do hotel e as perguntas “in-dis-pensáveis” feitas ao narrador.
O quinto capítulo chama-se “Baal”, referência ao Velho Testamento, do falso deus da carne. Paris é a mais moral das cidades, segundo o narrador. Todos se esforçam para se convencerem de sua felicidade. Contrasta Paris com Londres. A capital inglesa é sinônimo de máquinas, ferros, Palácio de Cristal (imagem da modernidade monstruosa) e Exposição Universal. Os ingleses até para se divertirem são sombrios, analisa o narrador. Em Londres, relata a miséria dos operários; Paris esconde suas misérias… A individualidade ocidental é ressaltada pelo narrador, em contraste do viver em sociedade. A sociedade inglesa é, por exemplo, uma guerra de todos. Para Dostoiévski, a Rússia está no começo de uma nova história, de uma história cheia de esperança a partir do sacrifício cristão de cada russo, em especial, o camponês.
O sexto capítulo chama-se “Ensaio sobre o burguês”. Este, o sétimo e o oitavo capítulos são dedicados a Paris. Tudo é encolhido pelo dinheiro e, daí, surge o conceito de burguês: este tem uma vida perfeita, acumular bens é sua moralidade, sempre seu aspecto é nobre, aceita o roubo por virtude e apresenta temor. Qual será a origem deste temor no burguês?, avalia o narrador: a razão pura? os frasistas? os operários? os camponeses? os comunistas? O temor tem nome: os socialistas. Em seguida, o narrador reflexiona sobre o lema “Liberdade, igualdade e fraternidade”. Liberdade está ligada à lei e ao dinheiro; a igualdade, segundo o francês, é ofensa pessoal; a fraternidade, ponto curioso, não existe na realidade, pois esta é constituída pelo egoísmo da individualidade. Quando um cabelinho entra na máquina, ironiza o narrador, tudo se perde. Reconhece que para haver fraternidade é preciso amar, portanto, isto é utopia. Os socialistas querem convencer os homens que há fraternidade. Por isso pensam em “Liberdade, igualdade, fraternidade ou morte!”. Deste modo, há o triunfo burguês. O temor do burguês resume-se no fato de ter alcançado tudo e possuir o medo de tudo perder, pois quem mais teme é quem mais prospera. O homem prefere a ilusão e a falsa liberdade do que abrir mão de sua individualidade em nome do coletivo. Somente na Rússia existe esta relação de consciência entre o indivíduo e a comunidade. Para Dostoiévski, viver para o outro é atingir o mais alto grau de personalidade e não anular o indivíduo em função do coletivo segundo o que pensam os ocidentais. Deste modo, só os russos são capazes de fraternidade, pois o europeu é essencialmente egoísta.
O sétimo capítulo chama-se “Continuação do anterior”. O narrador desenvolve neste capítulo a virtude do burguês, ou seja, o seu lacaio de nobre aparência. O burguês prospera e engana a si mesmo. O canalha, por exemplo, pode ter sentimento de honra, embora seja um depravado; o honesto, por exemplo, pode ter perdido este sentimento de honra, por isso é desprezível. Destaque para a eloquência do francês.
O oitavo e último capítulo chama-se “Bribri e Ma biche”. Bribri são os maridos; Ma biche, as esposas. O burguês assim pode ser definido: acumula dinheiro, tem eloquência, deseja ver o mar e rolar na grama. Gustave é o amante; o casamento é o dinheiro na mesma proporção entre a noiva e o noivo. Ter amantes é manter o casamento estável. Envelhecer é ter a esposa ao lado do marido ajudando-o a acumular dinheiro. O melodrama no teatro é a preferência dos burgueses, do Bribri, de Ma biche e de Gustave. “Tudo continua como deve ser.”
Notas de inverno sobre impressões de verão é a última obra importante do Vrêmia e, como oportunamente avalia Joseph Frank, uma “série de artigos com os quais lança um ataque total contra as principais devoções do credo radical”. Notas de inverno sobre impressões de verão não se constitui como apenas apontamentos de viagens, mas a relação estreita entre a intelectualidade russa e a cultura assimilada da Europa. Dostoiévski discute o futuro dos homens e o socialismo. Os críticos são unânimes de que em Notas de inverno sobre impressões de verão há o esboço de Memórias do subsolo. Através de um narrador em primeira pessoa, este dialoga com os seus amigos e nas reações destes com o que ele, o narrador, está escrevendo. O que perpassa toda a obra Notas de inverno sobre impressões de verão é o pensamento que Dostoiévski está a defender, ou seja, que o russo não abre mão de sua base moral, por ter noção que a moral pode ser delinquida, enquanto que o europeu tomou o mal pelo bem.

Para concluir:

·       Sobre a Nova Ordem, segundo Maria Aleksevna: “Nos seus livros está escrito que, se não se deve viver assim, então é preciso mudar tudo. Mas se não se pode viver com as instituições atuais, como eles dizem, por que não se apressam em introduzir uma nova ordem? Verinha, você pensa que não sei que tipo de nova ordem descrevem nos seus livros? Eu sei: uma boa ordem. Só que eu e você não vamos viver até lá. Pena que o povo seja tão burro. Como é que vai criar uma nova ordem boa com este tipo de povo? Por isso vamos continuar a viver como dantes. E você também! E como é a velha ordem? Os seus livros dizem que a velha ordem é: enganar e trapacear. É verdade, Verinha. Enquanto não há uma ordem nova, viva pela antiga. Engane e trapaceie. Estou lhe dizendo isso porque a amo…” (Cap. Primeiro. I. A vida de Vera Pavlovna na casa de seus pais.);
·      Discurso de Vera Pavlovna: “Você me chama de sonhadora. Pergunta o que quero da vida. Eu não quero nem dominar nem ser dominada, não quero nem enganar nem fingir, não quero seguir a opinião de outros, ir atrás de coisas que outros me recomendam, mas das quais não preciso. Eu não me acostumei com riqueza: não preciso dela. Porque eu haveria de buscá-la apenas porque outros pensam que ela é agradável a todos e, por isso, deveria também ser agradável a mim? Eu nunca fiz parte da boa sociedade, não experimentei o que significa brilhar socialmente, e nunca tive atração por isso. Por que eu deveria sacrificar algo para conseguir uma posição confortável só porque, na opinião de alguns, ela é agradável? Eu nunca sacrificarei nada por alguma coisa que não me é necessária: não, não sacrificarei nem a mim nem meu menor capricho. Quero ser independente e viver minha própria vida. Estou pronta para fazer sacrifícios pelas coisas que realmente me são necessárias. O que não me é necessário, eu não quero e não quero. Não sei o que me será necessário. Você diz que sou jovem, inexperiente e, com o tempo, mudarei. Pois bem, quando eu mudar, mudarei. Mas agora não quero, não quero, não quero nada que eu não queira. E você me pergunta o que quero agora. Bem, isso eu não sei. Quero amar um homem? Não sei. Vê, ontem de manhã quando levantei da cama eu não sabia que depois quereria amar você. Algumas horas antes de amá-la, eu não sabia que a amaria e também não sabia como eu me sentiria quando a amasse. Assim, neste momento eu não sei como me sentirei se amar um homem. Só sei que não quero me submeter a ninguém. Quero ser livre. Não quero ficar devendo nada a ninguém de modo que ninguém possa vir a mim e me dizer: você tem obrigação de fazer algo por mim. Quero fazer apenas o que tenho desejo. E que os outros também possam fazer apenas o que desejam. Eu não quero exigir nada de ninguém. Não quero atrapalhar a liberdade de ninguém e quero ser livre também.”;

·     Sobre os tipos de honestidade irrepreensível e seus destinos: “Esse tipo surgiu entre nós há pouco tempo. Antes havia apenas alguns indivíduos isolados pressagos. Eles eram exceções e, como exceção, sentiam-se solitários, impotentes e, por isso, quedaram-se ociosos, desanimados, exaltados, romantizados ou fantasiados. Ou seja, não podiam ativar uma das principais características de seu tipo: atividade racional, calculado e firme com implacável praticidade. Apesar de serem pessoas de natureza semelhante, ainda não tinham desenvolvido um tipo próprio. Esse tipo é recente. Apesar de um não ser muito velho, ou nada velho, na minha época ele ainda não existia. Eu mesmo não poderia vir a ser um deles: nasci na época errada. Exatamente por não ser um deles, não preciso me conter ao expressar minha admiração por eles. Infelizmente não estou me elogiando quando digo que são pessoas esplêndidas. Este tipo surgiu há pouco tempo, mas está se propagando rapidamente. Ele nasceu com sua época, é emblema de sua época e (será que devo dizer isso?) desaparecerá com sua época passageira. Sua vida recente está destinada a ser de curta duração. Seis anos atrás nem se via esse tipo de pessoa. Três anos atrás eram desprezados. Agora... bem, nem importa o que pensam deles agora, pois daqui a alguns anos, poucos anos, vão ser chamados: ‘Salvem-nos!’ E o que disserem será obedecido por todos. Mais alguns anos, talvez meses, e serão amaldiçoados, expulsos de cena, vaiados e insultados. Mas e daí? Mesmo amaldiçoados, vaiados, insultados e expulsados, eles terão sido úteis a vocês. Isso é o suficiente para eles e, sob o ruído das vaias e o trovão das maldições, sairão de cena orgulhosos e humildes, severos e bondosos como eram. Não ficarão em cena? Não. Mas como será sem eles? Ruim. Mas, de qualquer jeito, depois deles será melhor que antes deles. E, com o passar dos anos, as pessoas dirão: ‘A vida ficou melhor depois deles, apesar de ainda ruim’. E quando disserem isso, será a época de reaparecer esse tipo. E ele vai reaparecer em maior quantidade, com melhor qualidade e, por isso, tudo que é bom será mais e melhor. E de novo toda a história se repetirá em nova forma. E tudo se passará assim até que um dia as pessoas digam: ‘Agora estamos todos bem’. Então não mais haverá esse tipo em separado, pois todas as pessoas serão desse tipo. E terão dificuldade em compreender como já houve época em que ele era considerado um tipo especial e não a natureza geral de todas as pessoas.”

sábado, 5 de março de 2016

O ADOLESCENTE, de DOSTOIÉVSKI

O adolescente é romance considerado de formação, nas palavras de Boris Schnaidermann (e de um ou de outro crítico russo), pela trajetória apresentada por Arkadi Makárovitch Dolgorúki. Este personagem, também herói e narrador de seus Escritos, apresenta sua infância, seu abandono por parte dos pais, sua ida ao internato Touchard, sua permanência em casa de Nikolai Semiónovitch e de Mária Ivánovna em Moscou, sua ida para Petersburgo e suas relações mais específicas com Viersílov, Sófia Andrêievna, Lizavieta Makárovna, Anna Andrêievna Viersílova, Tatiana Pávlovna, Nikolai Ivánovitch Sokólski, Catierina Nikoláievna, Serguiêi Pietróvitch Sokólski, Kraft, Lambert, Trichátov, Stebielkóv e, finalmente, Makar Ivánovitch Dolgorúki. É claro que toda grande obra de Fiódor Dostoiévski não se limita ao personagem, uma vez que investe numa vasta intenção de discutir considerações sociais, políticas, literárias, filosóficas e religiosas. Centrando a psicologia de Arkadi Makárovitch Dolgorúki na busca de seu autoconhecimento e na telemaquia (busca de seu pai, no caso, Viersílov) para construir sua identidade social, Dostoiévski investiga a formação de um Estado capitalista pós libertação dos servos na Rússia, assim como a estrutura familiar em desordem. Deste modo, duas formações estão em pauta para análise: a do indivíduo e a do Estado social, na perspectiva de que um complementa o outro (ou pode complementar), pois a denominada “nova geração” na Rússia dos meados dos anos 1860 até 1870 investe na formação do capital e, por extensão, do dinheiro e do poder. Não é coincidência que a ideia de Arkadi Makárovitch Dolgorúki e sua não revelação é a de se tornar, através da obstinação e da continuidade, um Rothschild, ou, ainda, o poder acima do próprio dinheiro e, por consequência, dominar, através deste poder, o próprio capital.

Dos cinco romances gigantes de Dostoiévski (Crime e castigo - 1866, O idiota -1868, Os demônios - 1871, O adolescente – 1875, e Os irmãos Karamázov - 1880), somente O adolescente apresenta narração em primeira pessoa e dá destaque inicial para a formação do protagonista, mostrando ao leitor o passado enquanto criança de Arkadi Makárovitch Dolgorúki. Destes grandes romances dostoievskianos, a dialética também se faz presente em O adolescente, como uma lei que oscila entre a união e a destruição, assim como a autodestruição e a conservação catalizando a desordem social e individual. Exemplo nítido é o duplo de Viersílov, como explicação para a sua variação de atitudes, entretanto, não é somente neste personagem a lei da dialética exercida, pois a obscuridade e a complexa engenhosidade das psicologias humanas intercedem para o desenvolvimento intrigante e policialesco (com a carta escrita por Catierina Nikoláievna) da narrativa.

Com publicação em 1875, O adolescente apresenta já em seu título o paradoxal costumeiro das obras de Dostoiévski. Seu herói Arkadi Makárovitch Dolgorúki tem 20 anos (“agora já caminho para os vinte e um anos”, afirma o narrador no Subcapítulo III, do Capítulo I, da Primeira Parte) e ainda não enfrenta, na Rússia, o estigma da maioridade social e jurídica, como apontam alguns críticos. Mas não é apenas este jovem o caminho traçado pelo autor, porque a “nova geração” também é apresentada em sua desordem, como o jovem príncipe Serioja (que morre), Darzan (que vive com más companhias), Trichátov (cuja família se envergonha dele), Lambert (vigarista e chantagista), Kraft (que pensa na Rússia e comete o suicídio), Vássin (humanista preso), Efím (de aspecto enlouquecido) e Ólia (humilhada e ofendida na melhor expressão dostoievskiana). Na convivência com todos estes jovens, Arkadi Makárovitch Dolgorúki procura formar a sua personalidade, com idas e vindas, com altos e baixos, com usurpação ética e manutenção desta, até consolidar transformações constantes com os diálogos de Viersílov e com a tranquilidade de seus encontros com Makar Ivánovitch.

Dostoiévski, inicialmente, coloca como título deste romance Desordem. Título que não ficaria mal pelas estupendas confusões e desordem tanto em nível da personalidade dos personagens, como de toda desordem em nível familiar e social apresentados no enredo. Mas, claro, O adolescente é título que parece mais propício à intenção da obra por lidar, simultaneamente, com o particular metafórico ampliado de um adolescente  e sua estrutura familiar em desarticulação na Rússia do século XIX.

O adolescente pode não ser visto, por alguns críticos ou leitores atentos, como o romance do mesmo nível daqueles considerados “os grandes” de Dostoiévski, mas isto não significa, necessariamente, que a proposta do autor não exerça, como de costume, a instigação de um problema fremente na sociedade russa de sua época. No romance anterior a’O adolescente, no caso O idiota, Dostoiévski constrói a figura de um príncipe que simboliza Cristo. Este personagem, no caso, Liev Nikoláievitch Míchkin, é protagonista, um dos últimos príncipes Míchkins, tem 26 anos, seus pais e avós eram odnodvórsts, ou seja, camponeses do Estado que têm direito de possuir servos, estuda um pouco de ciência, embora não estudou corretamente, conhece pouca gente na Rússia, órfão desde criança até seu final trágico (“danificação completa dos órgãos mentais”), concluindo, desta forma, sua passagem racional e espiritual pela sociedade. Dialeticamente, um príncipe Cristo, ou seja, com um título que lhe dá condições de ser aceito pela sociedade, sem que esta perceba (nem valorize) que sua condição humana (a de Cristo que na terra viveu, conheceu e se sacrificou pelos homens desventurados) é a possibilidade dele mesmo, o homem, tornar-se um dia melhor. A busca, portanto, por este “homem ideal”, em O idiota, não encontraremos de modo similar em O adolescente, obra esta que aborda a vida de Arkadi Makárovitch Dolgorúki em outra perspectiva. O artista Dostoiévski e sua genialidade cria, para um tema semelhante, opções diferentes. O interessante, porém, são algumas aproximações possíveis da formação entre os dois protagonistas (órfãos; pouco estudo; jovens; familiares camponeses; etc.), embora Arkadi Makárovitch Dolgorúki queira viver sua vida isoladamente e com o objetivo de ter o poder para conquistar o dinheiro e as pessoas. Arkadi Makárovitch Dolgorúki não é exemplo único na sociedade russa dos decênios dos anos 1860 e 1870, tanto em nível da busca de um capital de giro para se firmar na sociedade que se constrói pelas regras capitalistas, como da desestruturação da família russa. Dostoiévski está atento a estas transformações sociais, familiares e dos indivíduos. Sua trama pode iludir o leitor que procura, apenas, o enredo folhetinesco e de estrutura policial, com o suspense, com a intriga e seus desenlaces para a trama evoluir. Mas o autor é Dostoiévski, portanto, aquele tipo de escritor que não se contenta com a superficialidade narrativa, pois cria uma leitura subterrânea para o leitor atento e predisposto a reflexionar sobre a tríade de toda sociedade: indíviduo/família/sociedade. Para isso, procura a narrativa confessional de Arkadi Makárovitch Dolgorúki, protagonista que busca não somente o pai, mas as diferenças entre a sua rebeldia de adolescente e a idealização de outra geração (dos anos de 1840) que não a sua (dos anos 1860/1870). O choque será inevitável, assim como a construção ficcional ganha com seus contornos que ultrapassam a simples dicotomia entre um filho e um pai.

A estrutura familiar é complexa e bastante desordenada em O adolescente. Há, inicialmente, a união entre dois servos (Sófia Andrêievna, então com 18 anos, e Makar Ivánovitch Dolgorúki, então com 50 anos). Não há discussão sobre as condições de casamento entre estes dois, pois a união é estabelecida anteriormente pelo desejo da própria família, característica típica da estrutura sociofamiliar russa. Um ano depois deste casamento, viúvo aos 25 anos, Viersílov, senhor destes servos, negocia com Makar Ivánovitch a esposa deste, esta encantada talvez, segundo o narrador, por algumas características de seu senhor. Tudo dá-se como um negócio qualquer e, então, Sófia Andrêieva parte com Viersílov. Makar Ivánovitch é recompensado por esta entrega da esposa, com dinheiro, liberdade e viagem. Depois disto, peregrina pela Rússia e por mosteiros e não abandona a boa relação com a família agora “construída/desconstruída” por Viersílov (Makar Ivánovitch lembra o trabalho futuro de Dostoiévski em Os irmãos Karamázov, nas figuras do Zossima, o stárietz, e do adolescente Alieksiêi Fiódorovitch Karamázov, o Aliocha.). Um ano depois, nasce Arkadi Makárovitch Dolgorúki, o narrador, abandonado em seguida pelos pais, assim como Sófia Andrêievna também é deixada, algumas vezes, por Viersílov, quando este viaja ao estrangeiro. Dá suporte a Viersílov, a figura de Tatiana Pávlovna, personagem que, no final da história, sustentará toda a família de Viersílov e Sônia (assim também chamada Sófia Andrêievna). A criança Arkadi Makárovitch Dolgorúki é criada por estranhos e colocada em internato até terminar os seus estudos. Do convívio com seus pais, tira minimamente resquícios em sua lembrança, recordando mais da mãe e de uma certa pomba também recordada por Sônia. Seu sobrenome, Dolgorúki, é motivo de irritação para Arkadi Makárovitch Dolgorúki, pois precisa explicar que nada tem a ver com o príncipe Iúri Dolgorúki, fundador de Moscou no século XII. Arkadi Makárovitch Dolgorúki também explica, para estranhamento e gargalhadas de quem o escuta, ser filho bastardo de Viersílov, afinal, “Meu sobrenome é Dolgorúki, e meu pai legítimo é Makar Ivánovitch Dolgorúki, ex-servo doméstico dos senhores Viersílov. De sorte que sou um filho legítimo, embora seja ilegítimo no mais alto grau e minha origem não deixe a mínima dúvida.” Está, já no início da narrativa de O adolescente, a barafunda criada para Arkadi Makárovitch Dolgorúki: filho do servo Makar Ivánovitch, sobrenome igual a do príncipe Dolgorúki e filho do nobre Viersílov. Deste modo, Arkadi Makárovitch Dolgorúki explica didaticamente sua condição desfavorável, pois é filho legal de um ex-servo e filho ilegítimo de um nobre. Lembremos que Viersílov considera Sófia Andrêievna uma mulher casada, portanto, ele não poderia casar com ela em nível social. Enquanto isto, ou independentemente disto, procura conquistar outras mulheres (Catierina Nikoláievna, Lídia Akhmákova e Olga). A esperança de Arkadi Makárovitch Dolgorúki desta união legal, entre sua mãe e Viersílov, dá-se com a morte de Makar Ivánovitch, já velhinho e um tanto místico. No final do enredo, de fato, Sônia e Liza, irmã de Arkadi Makárovitch Dolgorúki, cuidam de Viersílov, assim como cuidaram de Makar Ivánovitch. A discussão de Dostoiévski flui também neste ponto do enredo, a desordem familiar e a construção de uma “família casual”, mencionada explicitamente na carta de Nikolai Semiónovitch enviada para Arkadi Makárovitch Dolgorúki, constituindo, desta maneira, um “apêndice” no final do romance, no caso, o Capítulo XIII – Conclusão, Subcapítulo III.

Se Arkadi Makárovitch Dolgorúki não é o “homem ideal” protagonizado por Míchkin, isto não o impede de querer sê-lo, através do poder que procura através da obstinação e continuidade do capital. Entretanto, ideal não significa real e, assim, sua “ideia” secreta míngua conforme a sua transformação cresce, graças ao convívio com chantagistas, mentirosos, canalhas, omissos, suspeitos, fanáticos, agiotas, nobres decadentes, jogadores, capitalistas, etc. Interessante é que esta transformação ou evolução do protagonista é sugerida e não objetivamente destacada, aprofundando sua psicologia e a psicologia de suas relações de dentro e de fora da família.

De fora da família, destacam-se as humilhações sofridas por Arkadi Makárovitch Dolgorúki no internato do senhor Touchard, com os castigos físicos e morais. Deste local, surge a figura de Lambert, que faz de Arkadi Makárovitch Dolgorúki seu criado pela condição deste, ou seja, filho de servos, como também esta figura sinistra reaparece em condição bizarra mais tarde no enredo, quando acha Arkadi Makárovitch Dolgorúki quase que congelado em rua de Petersburgo. Daí em diante na narrativa, Lambert ganha força enquanto personagem por não mais se desgrudar de Arkadi Makárovitch Dolgorúki, pois seu objetivo é a carta comprometedora de Catierina Nikoláievna. Destas humilhações do internato, vem a compensação do humilhado, ou seja, garantir, em seu sonho de grandeza, a resposta da condição humana em geral, a busca pelo dinheiro, pois “dinheiro é tudo e iguala as desigualdades”. Conquistada esta condição, o objetivo de Arkadi Makárovitch Dolgorúki é abandonar, definitivamente, a sociedade que o oprime, com a satisfação de ter o dinheiro a partir do poder da conquista, mais do que a própria conquista do dinheiro. Em Crime e castigo, Raskólnikov deseja ser um Napoleão para alavancar sua ideia, mas derrapa na vulgaridade de sua ação ao assassinar duas velhotas. Arkadi Makárovitch Dolgorúki desenvolve ideia não vulgar, pois ser Rothschild é não usar de expediente medíocre, embora, em seu amor-próprio, pense ser duas vezes Rothschild. 

Dostoiévski é observador social. Este costume não se dá somente da leitura de diversos jornais que realiza, mas também da contribuição que faz a revistas e periódicos. Manterá, mais para o final de sua vida, o denominado Diário de um escritor (1873/1878). Desta obra, sairão algumas de suas novelas curtas, como Bobók (1873) e Uma criatura dócil (1876).


Atenção Dostoiévski dá a fenômeno que o interessa, a “família casual” ou, ainda, famílias separadas e construídas desordenadamente pelo resultado das diversas crises sociais que a Rússia passa no século XIX. Em Crime e castigo, a família de Semion Zakháritch Marmieládov assim representa esta “família casual”. Marmieládov tem uma filha, a prostituta Sônia, de seu primeiro casamento; de seu segundo casamento, Semion Zakháritch Marmieládov, com Catierina Ivánovna, esta tem três filhos de seu primeiro casamento (Pólia, Kólia e Lênia). Marmieládov e Catierina Ivánovna formam aquele casal que se une para amenizar as dificuldades iniciais de sua vida e que, por fim, terminam por complicá-la ainda mais. Semion Zakháritch Marmieládov casa com Catierina Ivánovna pelo sofrimento que ela transmite a ele. De um lado, um homem arruinado que se apega à bebida como salvação; de outro, uma mulher que trabalha para poder manter certa dignidade de seu passado, oriunda de família nobre. Catierina Ivánovna, mulher culta, de origem nobre, morre no mesmo dia do enterro do marido e de suas exéquias, consumida pela tísica; fantasia uma realidade que tinha no passado, pois, no presente, a realidade mostra a desestruturação sociofamiliar da Rússia do século XIX. Dostoiévski esmiuça a família Semion Zakháritch Marmieládov também, é claro, com a figura de Catierina Ivánovna: pessoa nobre, tem três crianças (duas meninas de 9 e 6 anos e um menino de 7 anos) do primeiro casamento. É explosiva, fantasiosa e tuberculosa. Acaba por morrer desta doença em casa de Sônia. Termina, na rua, a dançar e cantar e obriga os filhos pequenos a fazer o mesmo. Enlouquecida, tuberculosa e histérica, não escuta mais ninguém.

A “família casual”, em O adolescente, surge do triângulo Makar/Sófia/Viersílov. O desenvolvimento ganha ênfase da seguinte maneira: do primeiro casamento de Viersílov, com moça da família Fanariótov, nascem Anna Andrêievna Viersílova e Andriêi Andriêivitch Viersílov, com sobrenomes Viersílov, portanto, com identidade e sem problemas de aceitação social. A desestruturação entre estes dois irmãos dá-se quando da recusa de Anna Andrêievna em aceitar dinheiro deixado pelo príncipe Nikolai Ivánovitch Sokólski, depois da fracassada tentativa dela em casar-se com o velho príncipe. Andriêi Andriêivitch deixa claro sua intenção econômica para se ligar às pessoas, independente de seu grau de intimidade, seja familiar ou não. Este mesmo Andriêi Andriêivitch não recebe seu irmão bastardo, Arkadi Makárovitch Dolgorúki, em Moscou, exatamente por este ser bastardo e sem dinheiro. Já no segundo encontro com Arkadi Makárovitch Dolgorúki, dá desculpa esfarrapada ao citar equívoco de seu criado, pois neste momento, deseja ajudar Anna Andrêievna para que esta se case com o velho príncipe rico. Neste caso, Arkadi Makárovitch Dolgorúki é figura importante, pois possui a carta que pode destruir a filha do príncipe, Catierina Nikoláievna, rival de Anna Andrêievna. Andrêi Andrêievitch é movido por dinheiro, seja decorrente este das relações familiares ou privadas da sociedade em formação capitalista. Da união (e não do casamento com Sônia), Viersílov tem outros dois filhos: o narrador Arkadi Makárovitch Dolgorúki e Lizavieta Makárovna. Veja que o patronímico é Makárovitch e Makárovna. Liza simpatiza-se com Vássia, mas engravida do principe Serguiêi Pietróvitch Sokólski, o Serioja. A intenção deste é casar com Liza, assim como já havia pedido em casamento Catierina Nikoláievna e engravidado a enfraquecida e suicida Lídia Akhmákova, enteada de Catierina Nikoláievna. O filho de Serioja e Lídia, ainda de peito, é criado por Viersílov em casa deste por uma babá. Interessante é este homem: não cria seus filhos naturais, mas se responsabiliza por criança alheia. A desordem faz-se presente nestas estruturas familiares. Lizavieta Makárovna aborta, ao cair de escada, o filho de Serioja. Arkadi Makárovitch Dolgorúki, fruto também desta segunda união de Viersílov, reclama, em determinado momento, da falta de orientação paterna que sempre precisou. Aliás, ele mesmo faz esta procura por necessidade ao aproximar-se de Viersílov. Aí, nasce um triângulo sentimental, embora este não gere disputa direta, nem tampouco concretização pela mesma mulher: pai e filho amam Catierina Nikoláievna. Em Os irmãos Karamázov, Dostoiévski explora este conflito de maneira mais direta, menos compreensível aos personagens e trágica para Dmitri Karamázov, Fiódor Karamázov e Grúchenka.

Outro aspecto que ganha força na narrativa, é, claramente, o dinheiro. Este é a base da “ideia” de Arkadi Makárovitch Dolgorúki, embora o poder seja mais importante do que o ganho do dinheiro, pois este, apenas, é vulgar. Veja o caso e a intenção de Lambert (ou de Raskólnikov). Mas há ampliação deste tema dinheiro, esta busca do lucro sem mediação do racional do personagem, uma vez que a ambição destrói a ética, a razão e a busca da verdadeira felicidade. O lucro é visto, desta forma, como algo que não faz as pessoas tornarem-se melhores na sociedade em que vivem. Outros personagens estão abduzidos pelo lucro e pela ganância, deixando, assim, de lado, a humanização das relações: (1) Catierina Nikoláievna deseja a fortuna paterna, assim como a garantia de um casamento que lhe dê tranquilidade com o barão Bioring; este, deseja, ardentemente, o dinheiro do futuro sogro e velho príncipe; (2) Anna Andrêievna Makárovna deseja casar com o velho príncipe Nikolái Ivánovitch Sokólski; (3) os príncipes Sokólski entram em disputa por terras com Viersílov ou, este, com aqueles; (4) o príncipe Serioja pretende dar, depois de resolvida a questão judiciária, um terço do valor das terras a Viersílov, mas não tem capacidade de fazer o que deseja; (5) Stebielkóv é agiota que encalacra Serioja e deseja o mesmo com Arkadi Makárovitch Dolgorúki, embora, com este, nada consiga; (6) Ólia vê-se ofendida e humilhada pelo dinheiro, tanto do comerciante Safrónov que enganou seu pai e que a deseja sexualmente, como por Viersílov, um aproveitador da fragilidade feminina; (7) Lambert agarra-se incansavelmente à carta que não possui (até roubá-la de Arkadi Makárovitch Dolgorúki) para chantagiar Catierina Nikoláievna em trezentos mil rublos; (8) jogos de bacará e de roleta são frequentados por Arkadi Makárovitch Dolgorúki, Serioja, Darzan, etc., cada um rebaixando-se ainda mais em um mundo movido pelo roubo, pela sorte e pelo desengano; (9) Lambert suborna o senhorio de Arkadi Makárovitch Dolgorúki, Mária, a empregada de Tatiana Pávlovna, Alfonsina, sustentada também por ele, além de Andrêiev, o grand dadais, entre outras relações entre dinheiro e personalidades alteradas pelos rublos. Dostoiévski reduz seus personagens graças ao dinheiro, colocando seus destinos destroçados exatamente pela incapacidade destes em relacionar o que pensam enquanto ideia elaborada e ideia já concebida por uma transformação capitalista na Rússia do século XIX. É claro que, para Dostoiévski, tanto o rico como o podre perdem-se na companhia do dinheiro, mas o pobre se perde mais, exemplificado nas figuras de Lambert e Ólia. Para o senhorio de Arkadi Makárovitch Dolgorúki, Piotr Hippolítovitch, para a cozinheira de Tatiana Pávlovna, Mária, e para a cúmplice e amante de Lambert, Alfonsina, ficam também a degradação moral. 


Em 1846, Dostoiévski escreve o romance O duplo, com enredo tripartido na construção de seus personagens, se considerarmos a duplicidade do protagonista Yákov Pietróvitch Golyádkin e os demais personagens e como aquele vê e analisa estes em detrimento da sua pessoa. Seus inimigos constituem, pois assim os avalia, um elenco que deseja prejudicar Golyádkin das piores maneiras possíveis, incitando a intriga, a desonestidade e o isolamento social. A partir do ponto de vista de Golyádkin, seus inimigos e seu duplo são, basicamente, o mesmo tipo de perfil nocivo, incrementados na neurose e na identificação de Golyákdin – através de seu duplo – como um homem não distante de toda a hipocrisia e ambição sociais que, apesar de negar veementemente, vive a demonstrar através de Golyádkin segundo. A personalidade de Golyádkin supera a si mesma, investindo numa outra forma de compor seu social que tanto nega, pois, no outro, satisfaz sua conduta que condena.

O conceito de duplo não só é trabalhado como exemplificado na figura de Viersílov em O adolescente. Vejamos o que Arkadi Makárovitch Dolgorúki escreve sobre Viersílov e o seu duplo:

“De resto, bem, rejeito de modo categórico que fosse um louco de verdade, ainda mais porque também agora ele nada tem de louco. Mas o ‘duplo’ eu admito como indubitável. O que é, no fundo, um duplo? Pelo menos segundo um livro de medicina de um especialista, que depois li a propósito, duplo não é senão o primeiro degrau de um distúrbio mental já sério, que pode acarretar um final bastante mau.”

A simbologia precisa do estado de duplicidade psicológica é materializada no ícone milagroso deixado por Makar Ivánovitch para Viersílov. Este, ao se apoderar do objeto legado, tem vontade (e avisa aos presentes) de quebrá-lo. Termina por fazer exatamente isto, jogando o objeto contra a quina do forno. O ícone parte-se em dois, duplicando-se. Assim Viersílov se pronuncia sobre a duplicidade:

“Palavra que não sei o que se passa comigo, amável Tatiana Pávlovna. Não se preocupe, ainda me lembro de que você é Tatiana Pávlovna e que é amável. Entretanto, vim aqui apenas por um minuto; queria dizer algo de bom a Sônia e procuro a palavra adequada, embora meu coração esteja cheio de palavras que não consigo pronunciar; são todas palavras muito estranhas. Sabe, parece-me que é como se eu estivesse todo me duplicando – ele olhou para todos nós com uma expressão de extrema seriedade no rosto e do modo mais sinceramente comunicativo. – Palavra que no pensamento eu me duplico e tenho um medo terrível disso. É como se a nosso lado estivesse um duplo nosso; nós mesmos somos inteligentes e sensatos, mas o outro deseja forçosamente cometer algum absurdo a nosso lado e fazer uma coisa às vezes divertidíssima, e às vezes observamos que somos nós mesmos que queremos fazer essa coisa absurda. E sabe Deus para quê, ou seja, é algo como querendo sem querer, resistindo com todas as forças e querendo. Conheci um médico que durante o enterro de seu pai começou de repente a assobiar na igreja. (…) Sabe, Sônia, vou pegar outra vez a imagem (ele a pegou e a girou nas mãos) e, sabes, estou agora, neste instante, com uma tremenda vontade de batê-la contra o forno, contra esse ângulo ali. Estou certo de que ela vai se partir de vez em duas metades – nem mais, nem menos. (…) Súbito, ao dizer a última palavra, ele se levantou num ímpeto, num piscar de olhos arrancou a imagem das mãos de Tatiana e, levantando furiosamente o braço, bateu com ela com toda a força contra a quina do forno azulejado. A imagem partiu-se exatamente em dois pedaços… Ato contínuo, ele se voltou para nós com o rosto vermelho, quase rublo, e cada traço do rosto pôs-se a tremer e a mexer-se.”

O adolescente é romance com narração em primeira pessoa. O ano da ação é o de 1874. Este narrador-protagonista biografa de modo confessional a sua própria vida, desde sua infância até o tempo presente, ou seja, sua adolescência ou seus 20 anos de idade. Fiódor Dostoiévski divide o romance em Primeira Parte (com dez capítulos em romano), Segunda Parte (com nove capítulos em romano) e Terceira Parte (com treze capítulos em romano, sendo o décimo terceiro também a Conclusão). Através da técnica do romance folhetinesco, o enredo ganha ares de mistério, de tensão emocional, de surpresas, de elementos bizarros e de reviravoltas dentro daquilo que o autor gosta de desenvolver em nível de espaço temporal, ou seja, a redução do tempo: Arkadi Makárovitch Dolgorúki, o narrador, resolve escrever seus Escritos (assim como os chama) depois de um ano dos acontecimentos que viveu. O tempo gira em torno de seis meses, reduzidos em cerca de doze dias intercalados nos meses de setembro, novembro e dezembro. A trama concentra-se na procura de Arkadi Makárovitch Dolgorúki por seu pai Viersílov, no que se refere à identificação ou não com este, ou seja, na telemaquia para poder formar sua personalidade e definir, finalmente, uma identidade social. Deste modo, Arkadi Makárovitch Dolgorúki avalia a si mesmo no momento em que escreve, como, também, avalia sua atuação enquanto personagem do passado que viveu com os demais personagens.
A intenção de Dostoiévski é, também, mostrar como a escrita evolui e é formada. Para isso, Arkadi Makárovitch Dolgorúki discute com o leitor o processo de construção em alguns momentos do enredo, antecipando, alertando, explicando com breves notas entre parênteses, pulando situações para mais tarde explicar, sugerindo, dando sequência à cena que o leitor já conhece o seu resultado, enfim, alterna a possibilidade de construção com a participação ativa do leitor, embora creia que não terá leitor para seus escritos. No Subcapítulo I, garante não escrever para todos, pois não deseja os elogios dos leitores, embora na Conclusão enviou seus Escritos para serem avaliados por Nikolai Semiónovitch, seu ex-educador. Arkadi Makárovitch Dolgorúki afirma que evitará os “floreios literários” e que não se julga literato. Deste modo, a crítica aos seus Escritos por parte de Nikolai Semiónovitch é fundamentada, pois ainda há o que fazer neste trabalho literário do autobiografista.


Outro ponto interessante é uma espécie de moldura no processo narrativo. Um prefácio é construído no Subcapítulo I, do Capítulo I, da Primeira Parte: “Não obstante, eis aqui o prefácio: não haverá mais nada desse gênero. Mãos à obra: se bem que não há nada mais complicado do que empreender alguma coisa, talvez, até, qualquer coisa.” No Subcapítulo II, da Primeira Parte, Capitulo I, assim procede: “Começo, quer dizer, gostaria de começar minhas notas a partir de dezenove de setembro do ano passado, isto é, exatamente do dia em que pela primeira vez encontrei… Mas explicar quem encontrei, assim, de antemão, quando ninguém sabe de nada, seria vulgar…” Explicação da explicação começa a marcar o estilo do narrador Arkadi Makárovitch Dolgorúki. No Subcapítulo III, da Primeira Parte, Capítulo I, inicia, finalmente, pela conclusão de seu curso colegial, ou seja, o ensino fundamental. No Capítulo XIII, denominado Conclusão, no último parágrafo do Subcapítulo II, da Terceira Parte, assim Arkadi Makárovitch Dolgorúki abre a frase: “Terminei. Talvez algum leitor goste de saber: o que foi feito de ‘minha ideia’ e o que significa essa minha vida nova que está começando e que anunciei de forma tão enigmática?” No final deste parágrafo do Subcapítulo II, Capítulo XIII – Conclusão, da Terceira Parte, assim se manifesta o narrador: “Depois de examinar ao meu redor, fiz a opção minuciosa e crítica por uma pessoa: Nikolai Semiónovitch, meu ex-educador em Moscou e marido de Mária Ivánovna. Não que eu necessitasse de fato de algum conselho: mas tive simplesmente o irresistível desejo de ouvir a opinião desse egoísta totalmente alheio e até um ponto frio, mas homem de uma inteligência indiscutível. Enviei-lhe meu manuscrito pedindo segredo, porque ainda não o havia mostrado a ninguém e muito menos a Tatiana Pávlovna. O manuscrito me foi devolvido duas semanas depois de enviado e acompanhado de uma carta bastante longa. Insiro apenas alguns trechos dessa carta, por encontrar neles uma concepção comum e algo como que esclarecedor. Eis os trechos.” Termina aí, então, a moldura narrativa proposta por Arkadi Makárovitch Dolgorúki. Em seguida, ou seja, o Subcapítulo III, Capítulo XIII – Conclusão, da Terceira Parte, surge como um “apêndice” ou “posfácio” dos Escritos de Arkadi Makárovitch Dolgorúki.