segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Tio Vânia - Antón P. Tchékhov


Tio Vânia  (Дядя Ваня)

Antón Pávlovitch Tchékhov
А н т о́ н    П а́ в л о в и ч    Ч е́ х о в



  Antón Pávilovitch Tchékhov escreve Tio Vânia em 1896, mas a origem da peça dá-se com O espírito dos bosques (1889), apresentado em dezembro no Teatro Abrámov. A crítica não recebe bem a peça e afirma não ser teatro e também nada significar. Anos depois, Tchékhov retoma este texto e reescreve ele por completo. Assim, surge Tio Vânia. Sua publicação ocorre em 1897; suas representações, em diversos teatros. A estreia dá-se no Teatro de Arte de Moscou em 26 de outubro de 1899, com encenação de Konstantin Sierguêievitch Stanislavski e Vladímir Niemiróvitch-Dântchenko e cenários de V. Simov. Olga Knipper, futura esposa de Tchékhov, interpreta Ielena; Liliana, Sonia; Vichnevski, tio Vânia; Stanislavski, Astrov. Os contrastes desta peça evidenciam-se na tensão dos conflitos que se arrastam na perspectiva de uma morosidade impressionante. A passividade de Vânia parece aniquilada com a revolta que este passa a ter frente a sua própria vida, embora nada faça de concreto para sair do mesmo lugar. Sua preocupação para modificar seu modo de viver esbarra nele mesmo, pois nada muda em sua vida. A mudança não muda; sua vida passa enlutada pelo trabalho e por uma pausa ao receber, na propriedade rural, um casal citadino. Neste ponto, mais um contraste reiterado nas peças de Tchékhov: a cidade que “invade” com seus valores o modo de vida rural. Veja que o próprio subtítulo (“Cenas da vida rural”) antecipa esta discussão tchekhoviana. Assim, da vida tranquila levada por tio Vânia e sua família, surge a mudança de conceitos e de hábitos com a chegada de Serebriakov e sua jovem e linda esposa Ielena Andréievna. A beleza e seus efeitos arrematadores e destruidores são a tônica da peça, pois a “figura episódica” de Ielena balança personagens: tio Vânia; o próprio marido Serebriakov; o médico Astrov e, finalmente, Sonia e sua feiura. Coincidentemente, o belo da paisagem rural da Rússia também desaparece (assim como Ielena e o marido vão embora da casa rural). Esta concretização dá-se nos mapas ilustrados pelo médico Astrov, quando pinta a comarca há cinquenta e vinte e cinco anos até chegar no tempo presente onde se encontra. Florestas e animais vão minguando, mostra o médico que constrói bosques e não come carne. A transformação de Vânia é, no decorrer da peça, teórica e consciente de seu fracasso da existência vivida, assim como, na prática, tudo volta à estaca zero com a partida da beleza de Ielena Andréievna e a ciência de Serebriakov. A beleza, em Tio Vânia, é o retrato do medíocre e real dos personagens que, para fugir desta realidade, procuram a beleza para mascarar suas vidas insignificantes. A estética da perfeição parece ser a metáfora idealizada por Tchékhov para afirmar que o preço que se paga pelo sucesso da aparência é a capacidade de alguns homens perceberem que algo ficou para trás em suas vidas e que, realisticamente, já não é mais possível recuperar aquilo que foi desprestigiado pela própria concepção atribuída à beleza. 

  Nos versos de “Madrigal melancólico”, em O ritmo dissoluto (1924), de Manuel Bandeira, estes versos caem muito bem como exemplificação para Tio Vânia

O que eu adoro em ti, 
Não é a tua beleza. 
A beleza, é em nós que ela existe. 
A beleza é um conceito. 
E a beleza é triste. 
Não é triste em si, 
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.  

  Se a beleza é sinônimo de vitória na figura de Ielena Andréievna, também pode significar derrota para Ielena e todos aqueles que veneram esta figura maravilhosa e atraente. 


  O enredo de Tio Vânia passa-se no ano de 1896 e tem como subtítulo “Cenas da vida rural”. Cenas em quatro atos em movimento cíclico, se pensarmos que o trabalho executado na propriedade por Sonia e por Vânia terá continuidade no final do Quarto Ato. A vida apresentada por Tchékhov tem pouca ou nenhuma alteração, e a passividade de tio Vânia e de sua sobrinha Sonia ratificam esse imbróglio que é o tédio e o arrastar de uma existência sem sentido, sem felicidade e com a consciência de que a resignação dos golpes dados pelo destino é algo inexorável. Se haverá uma nova vida? Isso ficará a cargo da transcendência da própria morte ou das gerações futuras que, certamente, não reconhecerão esforço algum nos homens do passado. Tchékhov constrói em suas peças atritos que vão crescendo até se tornarem insuportáveis. 

  No Primeiro Ato de Tio Vânia, há atritos iniciais entre Voinitskii e o casal Serebriakov e Ielena, assim como críticas da babá Marina ao casal (no que se refere aos horários da casa) e Ielena e Voinitskii, pois este, no final do ato, declara-se à jovem esposa do professor aposentado. Ainda neste Primeiro Ato, o casal Ielena e Serebriakov faz com que a “vida saiu dos eixos”, pois há alteração no cotidiano da casa rural: Astrov, o médico, trabalha muito e, no enredo, pouco trabalha, ficando mais a perambular pelos cômodos e a pensar em Ielena; Voinitskii, outrora trabalhador com Sonia na fazenda, apenas bebe, come e dorme, além da declaração amorosa por Ielena; Sonia, ainda trabalha, mas esgota-se e fica, como diz, a escutar e conversar com Ielena. Esta é admirada por todos e julga-se tediosa e cansativa, assim como o marido não suporta mais viver naquela casa rural. A beleza de Ielena é seu viver (como é dito no Segundo Ato) e seu contágio é explícito em homens como Vânia e Astrov. Por sua vez, Ielena tem inclinação por Astrov, embora nada faça por fidelidade ao marido. Este julga-se velho e doente e afirma que deixará, em breve, a todos, o que não se confirma até o final da peça, quando parte da fazenda com a esposa para morar em Kharkov. Afinal, para Ielena, “as florestas são monótonas”. Tio Vânia e Sonia formam o par da infelicidade e do trabalho para os outros. Desta maneira, o título justifica-se, pois quem é lembrado como tio é porque tem sobrinho ou sobrinha, além de não ser pai, etc., ou seja, Vânia nada construiu fora o fato de ser único, ou seja, tio. O título é propositadamente estranho, pois a palavra “tio” antecipa a dura relação de Sonia e Vânia com seus destinos similares: tudo volta a ser o que foi, no cíclico de uma vida monótona e sem esperanças. Se no passado a vida de trabalho árduo para manter a fazenda e enviar dinheiro para a ciência de Serebriakov é festejada, no tempo presente a revolta de Vânia dá-se exatamente na figura desprezada que tem do professor. A revolta de Vânia está na sua vida liquidada para um homem que enganou a todos com sua falsa intelectualidade. Agora, só resta a Vânia revoltar-se e gritar em família o que fizeram com ele. Mas o ciclo e a inoperância são mais fortes, e no final da peça tudo volta a ser o que sempre foi, sem qualquer tentativa de mudança para tio e sobrinha. Aliás, esta aconselha o tio a trabalhar e a entregar-se, de vez, ao destino que os mantêm em seres infelizes e desesperançosos. Se esperança existe, é em outro nível metafísico, não mais no plano terreno e material. A sucessiva relação de fracassos e inocuidade entre os personagens é marca definitiva nas peças tchekhovianas: um professor adoentado e velho; a beleza de uma jovem esposa; uma matriarca que apenas repreende o filho de 47 anos em defesa do genro; um proprietário falido visto como parasita e serviçal; uma babá que traz boas lembranças a um médico; um médico que treme ao lembrar da morte de um paciente; uma sobrinha feia que não será amada e o tédio que a todos inferniza e que os mantêm nulos e completamente vazios em suas atitudes. 

  No Segundo Ato, as rivalidades continuam, seja com o professor não acreditando na competência do médico Astrov, tio Vânia e Astrov insatisfeitos com suas vidas, tornando-se uns “ursos rabugentes”. Astrov empolga-se com a beleza das mulheres, mas não acredita em relação íntima com ninguém. Ielena, idolatrada por Astrov e por Vânia, é a antítese de Sonia. Serebriakov, a antítese de Vânia. Este julga sua vida desperdiçada, sem passado e com um presente idiota. Astrov ama a vida, mas não aguenta a “vidinha burguesa e provinciana” que leva. Para ele, é difícil conviver com os intelectuais e, com os camponeses, impossível, pois são atrasados e sujos. 

  A peça começa a ganhar tensão principalmente no Terceiro Ato, quando da reunião proposta por Serebriakov. Este tem como objetivo vender a propriedade rural, para desespero e desconforto de tio Vânia. Os atritos continuam em paralelos: Astrov agarra pela cintura Ielena (esta encosta sua cabeça no peito dele para, em seguida, safar-se. No Quarto Ato, ao despedir-se de Astrov, Ielena abraça-o impetuosamente.); Sonia e Vânia são infelizes; Ielena é chamada de preguiçosa por Vânia; Sonia pergunta se é feia; Sonia chama Ielena de feiticeira; Ielena indaga como aguentarão todo um inverno na fazenda; Ielena tem vontade de fugir mas falta-lhe coragem; Ielena apaixonou-se um pouco por Astrov; e, finalmente, a revolta e a má pontaria de Vânia, pois atira com uma pistola em Serebriakov e erra por duas vezes. 

  No último e Quarto Ato, os conflitos são ajustados pela paz e harmonia, justificando toda e qualquer explosão por parte de alguns personagens como mera interferência sem resultado eficiente e, portanto, a manutenção da vida tediosa, arrastada e inócua. O casal desarmônico parte, assustado, para Kharkov; os horários da casa (chá, almoço e janta) voltam a ser respeitados; Vânia e Astrov continuam com suas desesperanças; a possibilidade de suicídio de Vânia deixa de existir quando este entrega a ampola de morfina que subtraiu da maleta do médico; o conselho de Sonia (a sobrinha) para Vânia (o tio) da necessidade de trabalhar para conseguir suportar tudo. Para Astrov, na comarca só ele e Vânia eram inteligentes, mas foram “tragados pelo pântano da vida pequeno-burguesa que nós desprezamos; com seus valores putrefatos ela envenenou nosso sangue e nos tornamos tão patifes quanto os outros.”. 
  Assim os atos são apresentados em nível cronológico: Primeiro Ato: cerca de 15h; Segundo Ato: 24h20min; Terceiro Ato: dia; setembro; Quarto Ato: noite; outubro. Tio Vânia é peça escrita depois de A gaivota (1896) e antes de As três irmãs (1900) e O jardim das cerejeiras (1903).


Personagens de Tio Vânia

1. Aleksander Vladimirovitch Serebriakov – professor universitário aposentado; filho de um escrivão; ex-seminarista; genro de um senador; catedrático; há 25 anos escreve e palestra sobre arte sem entender absolutamente nada, segundo tio Vânia; “mastiga ideias alheias sobre realismo, naturalismo e outras baboseiras”; vaidoso e um semideus pelo seu caminhar, segundo Voinitskii; casado com a jovem e bela Ielena Andréievna;
2. Besouro – cachorro do guarda matraqueador;
3. Criado 
4. Grigori Ilitch – irmão de Teleguin; apenas citado na peça;
5. Iefim – guarda matraqueador;
6. Ielena Andréievna (Lenotchka; Hélène) – mulher de Aleksander Vladimirovitch Serebriakov, 27 anos; belíssima e inteligente; detesta o marido, mas é fiel ao professor; nasceu em Petersburgo; estudou no conservatório; sentiu-se um pouco apaixonada por Astrov; leva cantada de Vânia;
7. Ilia Ilitch Teleguin – fazendeiro arruinado; sua esposa foge com o amante logo após o casamento; ele entregou sua fortuna para a educação dos filhos dela com o amante, pois este morreu; sua beleza murchou; o que restou para ela?, indaga Teleguin; Teleguin sempre a amou; marcas de varíola no rosto; apelido: Bexiga; padrinho de Sonia;
8. Ivan Petrovitch Voinitskii (tio Vânia; Jean) – filho de Maria Vasilievna Voinitskaia; 47 anos; segundo ele, perdeu a vida por não vê-la; odeia Aleksander Serebriakov; procura matar Serebriakov, mas erra os dois tiros que dá no professor; no fim, ambos se perdoam; 
9. Konstantin Trofimovitch Lakedemonov – irmão da esposa do irmão de Teleguin; magistrado; apenas citado na peça;
10. Maria Vasilievna Voinitskaia – viúva de um conselheiro de Estado; mãe da primeira mulher de Aleksander Serebriakov;
11. Marina – velha babá; “velha simples e gasta”; de movimentos lentos;
12. Mikhail Lvovitch Astrov – médico; segundo ele, a vida é “enfadonha, idiota e suja”; está cercado de excêntricos e estranhos; julga-se também excêntrico, mas não tonto; não ama ninguém; deseja bem só a velha babá; se diz um dos personagens de Ostrovski, com “longos bigodes e ideias curtas”; segundo ele, as florestas dão beleza à terra, ensinam o que é belo e elevam o espírito; bonito; interessante; atraente; apaixonado por Ielena Andréievna; não ama Sonia;
13. Moleca – cachorro do guarda matraqueador;
14. Pavel Aleksêievitch – apenas citado; escreve artigos e envia estes para Maria Vasilievna;
15. Sofia Aleksandrovna (Sonia; Sonietcka; Sophie) – filha do primeiro casamento de Serebriakov; feia; boa; pura; inteligente; apaixonada pelo médico Astrov; fica só;
16. Vera Petrovna – mãe de Sonia; já falecida; bela e meiga.

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