sexta-feira, 3 de junho de 2016

O QUE FAZER?, de Nikolai Tchernichevski

Nikolai Gavrílovitch Tchernichevski nasce em 1828 e morre em 1889. Considerado um subversivo, é preso e encerrado na Prisão de Pedro e Paulo. Com a permissão de escrever um romance, dada pelo comandante da Prisão de Pedro e Paulo, o Príncipe Golítsin, Tchernichevski escreve aquele que é considerado na Rússia o mais importante romance do século XIX, por causar efeitos extraordinários na vida dos jovens dos anos de 1860 e de se consolidar ao fazer história revolucionária.
Para o leitor ocidental é um tanto difícil admitir O que fazer? e seu autor como mais importantes do que escritores como Turguêniev, Dostoiévski e Tolstói.
Tchernichevski foi figura de destaque na vida política da Rússia das décadas de 1860 e 1870, assim, como seus pares contemporâneos Aleksandr Ivánovitch Herzen (1812-1870), Nikolai Aleksándrovitch Dobroliúbov (1836-1861) e Dmitri Ivánovitch Píssarev (1840-1868).  Tchernichevski tem participação na Revista O Contemporâneo com seus artigos e no ano de 1862 é detido e condenado à prisão perpétua na Sibéria, local que passará mais de vinte anos. No ano de 1855, escreve tese sobre os problemas da estética artística (As relações estéticas entre a arte e a realidade), texto em que desenvolve as bases para uma estética materialista. Para Tchernichevski, “a beleza é o produto da realidade”, ou seja, desenvolve a partir de uma lógica evolutiva, opondo-se contra o conceito e as teses de Hegel, então em voga na Rússia, de que “a beleza é uma expressão do ideal”. No ano de 1856, escreve Ensaios sobre o período de Gógol na literatura russa

Nikolai Gógol
O contraste apresentado nestes ensaios versam exatamente na oposição inicial entre a arte puchkiniana e a arte gogoliana. Para os partidários da poesia de Puchkin, na obra deste residia o conceito de arte pura, enquanto para aqueles partidários da arte de Gógol, a arte tinha função social, denunciando, desta maneira, os problemas da Rússia. Tchernichevski parte do pressuposto de que a estética realista é superior à estética romântica, na dialética conceitual entre o real e o ideal. Desta maneira, para Tchernichevski, a função do escritor era a de educar o povo, assim, como a função da crítica literária era a de orientar os escritores e controlar a arte. O leitor de O que fazer? percebe o quanto didático, por exemplo, é este romance. Em 1861, Tchernichevski lança o artigo É o início da troca, talvez? Neste artigo, Tchernichevski confronta a literatura moderna e seus escritores a combater a inércia da literatura passadista, agora, enxergando o povo como sujeito e não mais como objeto do processo histórico. O escritor tem a missão, segundo o autor de O que fazer?, de chamar o leitor para a luta e não admirar a paciência dos desprotegidos, tão encenada por alguns escritores do século XIX como Fiódor Dostoiévski. Agora, para Tchernichevski, a sociedade e a literatura precisam de um herói positivo que sirva de modelo para a juventude, e não um Raskólnikov, de Crime e castigo, de Dostoiévski. Claro que esta obra dostoievskiana ainda não havia sido escrita, pois sua publicação vem a ser em 1866. 

Antes, Dostoiévski escreveria, em 1864, Memórias do subsolo como resposta à lógica utilitarista de O que fazer?, assim como citaria O que fazer? em seu romance de 1871, Os demônios, quando o narrador Anton destaca o romance O que fazer? como uma das leituras de Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski (Segunda Parte, III – Todos na expectativa, Capítulo II.). Neste artigo de 1861, Tchernichevski mostra a necessidade de reorganização da vida a partir de princípios mais avançados em nível social e econômico, elementos que serão vistos pelo leitor em O que fazer? na figura, principalmente, de Vera Pavlovna.
Tchernichevski

Dobroliúbov tinha como objetivo o princípio de analisar os tipos sociais do romance a partir da psicologia dos personagens e das cenas, assim, como discutir a função do escritor dentro da sociedade. Píssarev, autêntico mestre da polêmica literária, negava o valor histórico da literatura e ditava a ciência natural como superior à arte. Negava a poesia, assim como seu niilismo artístico polemizou com as obras de Puckhin, Turguêniev, Dostoiévski e Tolstói. Já Herzen, procurava mediar os conceitas da cultura russa com a cultura ocidental, sendo criticado tanto pelos liberais como pelos jovens revolucionários.
Em O que fazer?, Tchernichevski centrou a discussão nos jovens russos Vera Pavlovna, Kirsanov, Lopukhov e Rakhmetov, sendo este último um revolucionário. A partir destes quatro personagens, os novos valores passam a ser discutidos no romance. O que fazer? é, também, uma resposta aos niilistas de Pais e filhos (1861) de Ivan Serguéievitch Turguêniev.

Ivan Turguêniev
O Que Fazer? tem sua primeira parte editada no ano de 1863, em abril, no periódico radical O Contemporâneo, editado por Nekrasov. Este amigo de Tchernichevski é citado algumas vezes no decorrer do enredo de O que fazer?. Nekrasov perde os manuscritos do romance de Tchernichevski em uma condução, precisando de ajuda da própria polícia ao anunciar a perda no jornal oficial da corporação policial de São Petersburgo.
Embora apresente uma qualidade literária primária, O que fazer? consegue converter uma geração ao populismo. O objetivo do romance de Tchernichevski é mostrar a necessidade de uma rápida e necessária troca de âmbito social. O romance tem lacunas e omissões propositais, difundindo alguns temas um tanto velados, mas suficientes para serem nitidamente mostrados para o leitor mais atento. No desenvolver do enredo, o leitor vai percebendo os modelos que Tchernichevski sugere para uma vida alternativa para todo aquele que não estava satisfeito com o andar da sociedade russa do século XIX. Com forte moralismo discursivo e explícito didatismo de ideias, O que fazer? dá todos os indicadores para uma transformação social no momento que desenvolve longos diálogos entre Vera Pavlovna e Lopukhov, assim como Vera Pavlovna e Kirsanov.

Tchernichevski atrai a expectativa e a atenção do leitor já nos primeiros capítulos, relatando o suicídio (que se verá como falso) do marido de Vera Pavlovna, Lopukhov. No final do enredo, para a surpresa do leitor (atento, é claro!), Lopukhov reaparece na figura de Charles Beaumont, um americano que se considera russo, abolicionista e noivo de Katya, amiga de sua ex-mulher Vera Pavlovna. Deste modo, há nova convivência entre os casais Vera Pavlovna/Kirsanov e Katya/Lopukhov (Beaumont). Desta maneira, Lopukhov, com seu falso suicídio, permite que sua mulher se case com outro homem quando se dá conta do fracasso de seu casamento com Verinha. A ideia filosófica de Tchernichevski se desenvolve a partir da ideia do utilitarismo e do “egoísmo racional”, embora mais com tendência a analisar o comportamento dos personagens e seus efeitos positivos na vida dos protagonistas. Inicialmente, o leitor depara-se com as dificuldades de Vera Pavlovna e o despotismo de sua estrutura familiar (pais penhoristas). Maria Aleksevna vê em sua família a condição de ter mais dinheiro, através do casamento de sua filha, por isso se vê roubada por Lopukhov. Este abre mão da sua medicina para salvar Verinha, com a explicação para si mesmo que, mesmo abandonando a medicina, possa ganhar mais dinheiro com outras atividades. Deste modo, não abre mão de algo por causa do prazer. A partir do casamento com Vera Pavlovna, o autor investe em conceitos sobre a questão feminina e direitos iguais entre homem e mulher, exemplificados na distribuição dos quartos (neutros) do casal. Em seguida, Vera Pavlovna funda um ateliê (mais tarde, mais dois ateliês), com uma lógica econômica socialista, investindo no trabalho, na vida em comum e na cultura. Mesclam-se aí conceitos da educação feminina e das cooperativas femininas.

Vera Pavlovna tem quatro sonhos no decorrer do enredo e, no quarto sonho, a Idade de Ouro, através do Palácio de Cristal, é mencionada. Em 1862, Dostoiévski faz referência ao Palácio de Cristal em Notas de inverno sobre impressões de verão, mencionando a Feira Mundial em Londres em 1851. Dostoiévski havia visitado o Palácio de Cristal e ficado horrorizado com sua falta de humanismo. Em 1864, Dostoiévski responderia ao romance de Tchernichevski O que fazer? com Memórias do subsolo. Veja o que escrevi em artigo sobre Notas de inverno sobre impressões de verão:

Fiódor Dostoiévski
Algumas considerações do caráter do narrador e seus conceitos aparecerão em 1864, em Memórias do subsolo, quando das referências de ser o narrador de Notas de inverno sobre impressões de verão um homem doente, que sofre do fígado, que sabe que mentirá e que vê no espelho de um hotel sua língua amarela e maligna. Além destas considerações sobre o narrador em si, este em suas notas de viagem pela Europa tece comentários e conceitos sobre progresso, socialismo, mulheres, casamento, miséria, mentiras, etc. Claro que o “homem do subsolo” terá, em Memórias do subsolo, um nível mais apurado de consciência filosófica e psicológica, desenvolvendo mais perigosamente suas ideias e conceitos, o que o torna ímpar, comparativamente ao narrador de Notas de inverno sobre impressões de verão. Vejamos alguns pontos desconcertantes e polêmicos instaurados pelo protagonista de Memórias do subsolo: é doente, mal e desagradável, instruído, supersticioso e se prejudica a si mesmo. Não se trata, embora respeite a medicina e os médicos (até por ser supersticioso). Vive deste modo há 20 anos; na atualidade, tem 40. Afirma que somente os imbecis conseguem ser algo na vida e, por extensão, ter caráter. Segundo o “homem do subsolo”, viver depois dos 40 anos é indecente, vulgar e imoral. Só imbecis e canalhas vivem depois dos 40. Para ele, um homem decente fala com prazer de si mesmo. Ter consciência muito perspicaz é uma doença. Para o “homem do subsolo”, Petersburgo é a cidade mais abstrata e meditativa do mundo. Seu prazer, segundo o que pensa, é ter consciência de sua degradação. A ofensa dá prazer. Tem um terrível amor-próprio e sabe que vive no lodo, ao contrário do intitulado “belo e sublime”. Sua culpa é ser mais inteligente do que aqueles que estão a sua volta. Para o uso cotidiano, basta a consciência humana comum. Para os homens diretos e de ação é suficiente esta consciência. A consciência hipertrofiada leva à inércia. Segundo as leis da natureza, somos culpados sem culpa. Um homem direto é um homem autêntico e estúpido. Diante de um muro, os homens de ação cedem, diferente dos homens de pensamento. O “homem do subsolo” não se respeita. Uma dor de dentes é prazer, através dos gemidos maldosos, do sofredor. O “homem do subsolo” indaga: é possível respeitar quem busca prazer na abjeção? A inércia é resultado direto da consciência. Já procurou ofender-se intencionalmente. O homem se vinga porque acredita ser justo. Para o “homem do subsolo”, ele se vinga por maldade. Julga-se um homem inteligente por não ter iniciado nem acabado coisa alguma. O “homem do subsolo” se respeitaria se não fizesse nada por preguiça. Ser preguiçoso é algo positivo, é título, é carreira. Eis o século da negação. O homem é tão afeiçoado ao sistema que deturpa a verdade para justificar sua lógica. Apesar da ciência e da razão, o homem continua bárbaro em sua violência. O homem precisa de uma vontade independente. A vantagem humana é o prejuízo também. É possível o homem sem desejo e sem vontade?, indaga o “homem do subsolo”. Vontade e mais razão é mais razão e menos vontade. O “homem do subsolo” lembra seus 40 anos de subsolo. A razão satisfaz o lado racional do homem, não o desejo, que é o sentido da vida. O homem é um “bípede ingrato”. O maior defeito do homem é sua permanente imoralidade e a falta de bom-senso (que provém da imoralidade). A história do gênero humano não é sensata. Amaldiçoar é o privilégio e a principal qualidade que diferencia o homem dos outros animais. O homem abre caminhos e se desvia do caminho, pois está condenado a abri-los. Destrói caminhos para que não conclua, pois, se não, não haveria mais objetivo na vida. O homem gosta do processo de atingir o objetivo, e não o próprio objetivo em si. O homem ama a prosperidade e o sofrimento de modo igual. O sofrimento é a dúvida e a negação é a causa única da consciência, maior infelicidade para o homem. O “homem do subsolo” acredita e não acredita no que está escrevendo, pois sente estar mentindo. Por que se dirige a nós como “senhores” e “leitores de verdade”? Afirma escrever somente para si. É por exibição que se dirige aos leitores, pois assim é mais fácil escrever. Por fim: há coisas que o homem revela aos amigos; outras que revela a si próprio; outras que tem medo de desvendar a si próprio. O papel que escreve tem algo que intimida.
O segundo capítulo, de Notas de inverno sobre impressões de verão, chama-se “No trem”. Aqui, a primeira informação do narrador é que o francês não tem juízo e que a Europa exerce impressão e atração nos russos. Ironiza chamando o Ocidente de “país das santas maravilhas”, pois tudo vem de lá: ciência, arte, humanismo, etc. Indaga como a Rússia ainda não sofreu a completa transformação?
O terceiro capítulo chama-se “E inteiramente supérfluo”. Questiona se suas anotações não são reflexões, devaneios ou “imagem arbitrária”? Apresenta outros assuntos que não necessariamente da viagem a ser contada, como a relação da aristocracia e o povo. Argumenta, entretanto, que se trata de recordações de inverno sobre impressões de verão. Já passou por Eidkunen e está na França. Comenta como a Europa forçou a porta para civilizar a Russia. Fala do russo, homem crédulo e com espírito bonachão. Ironiza que a Rússia é, através de Petersburgo, europeia, e que o povo russo não compreende o progresso europeu na Rússia. Conceitua a moral julgada entre uma casamenteira e uma dama, com pesos e medidas diferentes. Sabe que todos os russos intelectuais vão para o Ocidente, mas o caso dele é diferente. Julga o capítulo que escreveu de supérfluo. Neste capítulo, o leitor percebe a preocupação de Dostoiévski de fugir do pessoalismo da contagem de uma simples viagem para a capacidade crítica de avaliar a cultura europeia refletida na Rússia. Esta capacidade de Dostoiévski é a de, também, trabalhar como o psiquismo destas relações refletem na sociedade russa. O primeiro homem supérfluo é Tchátzki, personagem de Griboiédov. O tipo moderno russo, já é radical e progressista.
O quarto capítulo chama-se “E não supérfluo para o viajante”. O narrador inicia indagando, novamente, “por que não terá juízo o francês?”. No trem, troca conversa com um suíço; é observado por policiais franceses espiões. Neste momento, cruza a fronteira com a França, passando pela alfândega de Arkelin. Questiona a liberdade europeia. Relata o casal de velhos do hotel e as perguntas “in-dis-pensáveis” feitas ao narrador.
O quinto capítulo chama-se “Baal”, referência ao Velho Testamento, do falso deus da carne. Paris é a mais moral das cidades, segundo o narrador. Todos se esforçam para se convencerem de sua felicidade. Contrasta Paris com Londres. A capital inglesa é sinônimo de máquinas, ferros, Palácio de Cristal (imagem da modernidade monstruosa) e Exposição Universal. Os ingleses até para se divertirem são sombrios, analisa o narrador. Em Londres, relata a miséria dos operários; Paris esconde suas misérias… A individualidade ocidental é ressaltada pelo narrador, em contraste do viver em sociedade. A sociedade inglesa é, por exemplo, uma guerra de todos. Para Dostoiévski, a Rússia está no começo de uma nova história, de uma história cheia de esperança a partir do sacrifício cristão de cada russo, em especial, o camponês.
O sexto capítulo chama-se “Ensaio sobre o burguês”. Este, o sétimo e o oitavo capítulos são dedicados a Paris. Tudo é encolhido pelo dinheiro e, daí, surge o conceito de burguês: este tem uma vida perfeita, acumular bens é sua moralidade, sempre seu aspecto é nobre, aceita o roubo por virtude e apresenta temor. Qual será a origem deste temor no burguês?, avalia o narrador: a razão pura? os frasistas? os operários? os camponeses? os comunistas? O temor tem nome: os socialistas. Em seguida, o narrador reflexiona sobre o lema “Liberdade, igualdade e fraternidade”. Liberdade está ligada à lei e ao dinheiro; a igualdade, segundo o francês, é ofensa pessoal; a fraternidade, ponto curioso, não existe na realidade, pois esta é constituída pelo egoísmo da individualidade. Quando um cabelinho entra na máquina, ironiza o narrador, tudo se perde. Reconhece que para haver fraternidade é preciso amar, portanto, isto é utopia. Os socialistas querem convencer os homens que há fraternidade. Por isso pensam em “Liberdade, igualdade, fraternidade ou morte!”. Deste modo, há o triunfo burguês. O temor do burguês resume-se no fato de ter alcançado tudo e possuir o medo de tudo perder, pois quem mais teme é quem mais prospera. O homem prefere a ilusão e a falsa liberdade do que abrir mão de sua individualidade em nome do coletivo. Somente na Rússia existe esta relação de consciência entre o indivíduo e a comunidade. Para Dostoiévski, viver para o outro é atingir o mais alto grau de personalidade e não anular o indivíduo em função do coletivo segundo o que pensam os ocidentais. Deste modo, só os russos são capazes de fraternidade, pois o europeu é essencialmente egoísta.
O sétimo capítulo chama-se “Continuação do anterior”. O narrador desenvolve neste capítulo a virtude do burguês, ou seja, o seu lacaio de nobre aparência. O burguês prospera e engana a si mesmo. O canalha, por exemplo, pode ter sentimento de honra, embora seja um depravado; o honesto, por exemplo, pode ter perdido este sentimento de honra, por isso é desprezível. Destaque para a eloquência do francês.
O oitavo e último capítulo chama-se “Bribri e Ma biche”. Bribri são os maridos; Ma biche, as esposas. O burguês assim pode ser definido: acumula dinheiro, tem eloquência, deseja ver o mar e rolar na grama. Gustave é o amante; o casamento é o dinheiro na mesma proporção entre a noiva e o noivo. Ter amantes é manter o casamento estável. Envelhecer é ter a esposa ao lado do marido ajudando-o a acumular dinheiro. O melodrama no teatro é a preferência dos burgueses, do Bribri, de Ma biche e de Gustave. “Tudo continua como deve ser.”
Notas de inverno sobre impressões de verão é a última obra importante do Vrêmia e, como oportunamente avalia Joseph Frank, uma “série de artigos com os quais lança um ataque total contra as principais devoções do credo radical”. Notas de inverno sobre impressões de verão não se constitui como apenas apontamentos de viagens, mas a relação estreita entre a intelectualidade russa e a cultura assimilada da Europa. Dostoiévski discute o futuro dos homens e o socialismo. Os críticos são unânimes de que em Notas de inverno sobre impressões de verão há o esboço de Memórias do subsolo. Através de um narrador em primeira pessoa, este dialoga com os seus amigos e nas reações destes com o que ele, o narrador, está escrevendo. O que perpassa toda a obra Notas de inverno sobre impressões de verão é o pensamento que Dostoiévski está a defender, ou seja, que o russo não abre mão de sua base moral, por ter noção que a moral pode ser delinquida, enquanto que o europeu tomou o mal pelo bem.

Para concluir:

·       Sobre a Nova Ordem, segundo Maria Aleksevna: “Nos seus livros está escrito que, se não se deve viver assim, então é preciso mudar tudo. Mas se não se pode viver com as instituições atuais, como eles dizem, por que não se apressam em introduzir uma nova ordem? Verinha, você pensa que não sei que tipo de nova ordem descrevem nos seus livros? Eu sei: uma boa ordem. Só que eu e você não vamos viver até lá. Pena que o povo seja tão burro. Como é que vai criar uma nova ordem boa com este tipo de povo? Por isso vamos continuar a viver como dantes. E você também! E como é a velha ordem? Os seus livros dizem que a velha ordem é: enganar e trapacear. É verdade, Verinha. Enquanto não há uma ordem nova, viva pela antiga. Engane e trapaceie. Estou lhe dizendo isso porque a amo…” (Cap. Primeiro. I. A vida de Vera Pavlovna na casa de seus pais.);
·      Discurso de Vera Pavlovna: “Você me chama de sonhadora. Pergunta o que quero da vida. Eu não quero nem dominar nem ser dominada, não quero nem enganar nem fingir, não quero seguir a opinião de outros, ir atrás de coisas que outros me recomendam, mas das quais não preciso. Eu não me acostumei com riqueza: não preciso dela. Porque eu haveria de buscá-la apenas porque outros pensam que ela é agradável a todos e, por isso, deveria também ser agradável a mim? Eu nunca fiz parte da boa sociedade, não experimentei o que significa brilhar socialmente, e nunca tive atração por isso. Por que eu deveria sacrificar algo para conseguir uma posição confortável só porque, na opinião de alguns, ela é agradável? Eu nunca sacrificarei nada por alguma coisa que não me é necessária: não, não sacrificarei nem a mim nem meu menor capricho. Quero ser independente e viver minha própria vida. Estou pronta para fazer sacrifícios pelas coisas que realmente me são necessárias. O que não me é necessário, eu não quero e não quero. Não sei o que me será necessário. Você diz que sou jovem, inexperiente e, com o tempo, mudarei. Pois bem, quando eu mudar, mudarei. Mas agora não quero, não quero, não quero nada que eu não queira. E você me pergunta o que quero agora. Bem, isso eu não sei. Quero amar um homem? Não sei. Vê, ontem de manhã quando levantei da cama eu não sabia que depois quereria amar você. Algumas horas antes de amá-la, eu não sabia que a amaria e também não sabia como eu me sentiria quando a amasse. Assim, neste momento eu não sei como me sentirei se amar um homem. Só sei que não quero me submeter a ninguém. Quero ser livre. Não quero ficar devendo nada a ninguém de modo que ninguém possa vir a mim e me dizer: você tem obrigação de fazer algo por mim. Quero fazer apenas o que tenho desejo. E que os outros também possam fazer apenas o que desejam. Eu não quero exigir nada de ninguém. Não quero atrapalhar a liberdade de ninguém e quero ser livre também.”;

·     Sobre os tipos de honestidade irrepreensível e seus destinos: “Esse tipo surgiu entre nós há pouco tempo. Antes havia apenas alguns indivíduos isolados pressagos. Eles eram exceções e, como exceção, sentiam-se solitários, impotentes e, por isso, quedaram-se ociosos, desanimados, exaltados, romantizados ou fantasiados. Ou seja, não podiam ativar uma das principais características de seu tipo: atividade racional, calculado e firme com implacável praticidade. Apesar de serem pessoas de natureza semelhante, ainda não tinham desenvolvido um tipo próprio. Esse tipo é recente. Apesar de um não ser muito velho, ou nada velho, na minha época ele ainda não existia. Eu mesmo não poderia vir a ser um deles: nasci na época errada. Exatamente por não ser um deles, não preciso me conter ao expressar minha admiração por eles. Infelizmente não estou me elogiando quando digo que são pessoas esplêndidas. Este tipo surgiu há pouco tempo, mas está se propagando rapidamente. Ele nasceu com sua época, é emblema de sua época e (será que devo dizer isso?) desaparecerá com sua época passageira. Sua vida recente está destinada a ser de curta duração. Seis anos atrás nem se via esse tipo de pessoa. Três anos atrás eram desprezados. Agora... bem, nem importa o que pensam deles agora, pois daqui a alguns anos, poucos anos, vão ser chamados: ‘Salvem-nos!’ E o que disserem será obedecido por todos. Mais alguns anos, talvez meses, e serão amaldiçoados, expulsos de cena, vaiados e insultados. Mas e daí? Mesmo amaldiçoados, vaiados, insultados e expulsados, eles terão sido úteis a vocês. Isso é o suficiente para eles e, sob o ruído das vaias e o trovão das maldições, sairão de cena orgulhosos e humildes, severos e bondosos como eram. Não ficarão em cena? Não. Mas como será sem eles? Ruim. Mas, de qualquer jeito, depois deles será melhor que antes deles. E, com o passar dos anos, as pessoas dirão: ‘A vida ficou melhor depois deles, apesar de ainda ruim’. E quando disserem isso, será a época de reaparecer esse tipo. E ele vai reaparecer em maior quantidade, com melhor qualidade e, por isso, tudo que é bom será mais e melhor. E de novo toda a história se repetirá em nova forma. E tudo se passará assim até que um dia as pessoas digam: ‘Agora estamos todos bem’. Então não mais haverá esse tipo em separado, pois todas as pessoas serão desse tipo. E terão dificuldade em compreender como já houve época em que ele era considerado um tipo especial e não a natureza geral de todas as pessoas.”

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